Atividade antibacteriana e moduladora de Cecropia pachystachya Trécul sobre a ação de aminoglicosídeos

ARTCULO ORIGINAL

 

Atividade antibacteriana e moduladora de Cecropia pachystachya Trécul sobre a ação de aminoglicosídeos

 

Antibacterial and modulatory activity of Cecropia pachystachya Trécul on the action of aminoglycosides

 

Actividad antibacteriana y moduladora de Cecropia pachystachya Trécul en la acción de los aminoglucósidos

 

 

MSc. Daniele Oliveira Souza,I MSc. Saulo Relison Tintino,I Esp. Fernando Gomes Figuer edo,I Enf. Maria Cristina Melo Borges,I MSc. Maria Flaviana Bezerra Morais Braga,I Dr. Cícero Francisco Bezerra Felipe,II Dr. José Galberto Martins da Costa,I Dr.Henrique Douglas Melo Coutinho,I Dr. Irwin Rose Alencar de Menezes,I Dra. Marta Regina KerntopfI

I Laboratório de Farmacologia e Química Molecular, Laboratório de Microbiologia e Biologia Molecular, Laboratório de Pesquisa de Produtos Naturais, Universidade Regional do Cariri, Crato - CE, Brasil.
II Departamento de Biologia Molecular, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa - PB, Brasil.

 

 


RESUMO

Introdução: a Cecropia pachystachya Trécul., é conhecida como toré (Urticaceae), com ocorrência em todo o território brasileiro, usada na medicina popular no tratamento de infecções respiratórias e gonorreia.
Objetivo: avaliar a atividade antibacteriana e moduladora sobre antibióticos, do extrato etanólico e frações metanólicas das folhas e caule de C. pachystachya T., contra linhagens bacterianas padrões e multirresistentes.
Métodos: o material vegetal (folhas e caule), coletado na Chapada do Araripe, foi triturado e submerso em solvente etanol PA, e submetido à destilação do solvente no aparelho evaporador rotativo para a produção dos extratos, que foi particionado e submetido ao solvente metanólico, fornecendo as frações metanólicas. Um ensaio de microdiluição foi realizado para verificar a atividade antibacteriana e as possíveis interações dos aminoglicosídeos associados às amostras estudadas, utilizando uma concentração sub-inibitória de 128 µg/mL (CIM/8).
Resultados: o efeito mais representativo a associação da neomicina com o EEFCP (Extrato Etanólico das Folhas de C. pachystachya T) e sua fração com redução da CIM de 312.5 para 39,06 µg/mL e redução de 312,50 para 78,13 µg/mL, respectivamente ambos contra Staphylococcus aureus 358. Quando frente a E. coli 27, foi observado antagonismo.
Conclusões: os dados obtidos indicam que o extrato e as frações metanólicas de C. pachystachya, podem ser uma alternativa relevante na pesquisa de substâncias que tenham ação contra as bactérias Staphylococcus multirresistentes. Entretanto, o mesmo também pode interferir negativamente na ação das drogas testadas. Contudo são necessários novos teste in vivo para melhor comprovar essa ação.

Palavras-chave: Cecropia pachystachya T., atividade antibacteriana, atividade moduladora.


ABSTRACT

Introduction: Cecropia pachystachya Trécul, commonly known as 'toré' (Urticaceae) and distributed throughout Brazil, is used in folk medicine to treat respiratory and sexually transmitted infections such as gonorrhea.
Objective: evaluate the antibacterial and modulatory activity on antibiotics of the ethanolic extract and methanolic fractions of C. pachystachya T. leaves and stems against standard and multiresistant bacterial strains.
Methods: the plant material (leaves and stems) was collected in Araripe, crushed and put into ethanol PA as solvent. Distillation of the solvent was then performed in a rotary evaporator to produce the extracts, which were divided and subjected to the methanolic solvent to obtain the fractions. A microdilution assay was conducted to verify antibacterial activity and the possible interactions of aminoglycosides associated with the study samples. A sub-inhibitory concentration of 128 ?g/mL (MIC/8) was used.
Results: the most representative effect was the association of neomycin with EEFCP (ethanolic extract of leaves of C. pachystachya T.) and its fraction, with a MIC reduction of 312.5 for 39.06 µg/mL and 312.50 for 78.13 µg/mL, respectively, against Staphylococcus aureus 358. An antagonistic effect was observed against E. coli 27.
Conclusions: the data obtained indicate that C. pachystachya methanolic fractions and extract may be an important alternative in the search for substances with an action against multiresistant Staphylococcus bacteria. However, such a substance may also negatively affect the action of the drugs studied. It is necessary to conduct new experiments in vivo to verify such an action.

Key words: Cecropia pachystachya T., antibacterial activity, modulatory activity.


RESUMEN

Introducción: Cecropia pachystachya Trécul., es conocida como "toré" (Urticaceae), presente en todo el territorio brasileño, utilizada en la medicina popular para el tratamiento de infecciones respiratorias y de transmisión sexual (gonorrea).
Objetivo: evaluar la actividad antibacteriana y moduladora sobre antibióticos del extracto etanólico y fracciones metanólicas de las hojas y tallo de C. pachystachya T. contra cepas bacterianas estándar y multirresistentes.
Métodos: el material vegetal (hojas y tallos), colectado en el Araripe, fue triturado y sumergido en etanol PA como solvente. Seguidamente, fue sometido a destilación del solvente en un evaporador rotativo para la producción de los extractos, que fueron divididos y sometidos al solvente metanólico, formando así las fracciones. Se llevó a cabo un ensayo de microdilución para verificar la actividad antibacteriana y las posibles interacciones de aminoglucósidos asociados con las muestras estudiadas, se utilizó una concentración sub-inhibitoria de 128 µg/mL (CIM/8).
Resultados: el efecto más representativo resultó el de la asociación de neomicina con el EEFCP (Extrato Etanólico de hojas de C. pachystachya T) y su fracción con disminución de la CIM de 312,5 para 39,06 µg/mL y 312,50 para 78,13 µg/mL, respectivamente contra Staphylococcus aureus 358. Se observó un efecto antagónico contra E. coli 27.
Conclusiones: los datos obtenidos indican que el extracto y fracciones metanólicas de C. pachystachya, pueden ser una alternativa importante en la búsqueda de sustancias que tienen acción contra las bacterias Staphylococcus multirresistentes. Sin embargo, puede afectar negativamente a la acción de las drogas estudiadas. No obstante, es necesario realizar nuevos experimentos in vivo para comprobar esta acción.

Palabras clave: Cecropia pachystachya T., actividad antibacteriana, actividad moduladora.


 

INTRODUÇÃO

O crescimento da resistência de microrganismo a antimicrobianos têm preocupado as autoridades de saúde, representando gastos econômicos e perda de produtividade para as populações.1 Considerado atualmente um problema de saúde pública, causado tanto pelo uso adequado como inadequado de medicamentos para controlar a disseminação de infecções utilizados na saúde humana e animal bem como na produção de alimentos.2 Várias espécies bacterianas desenvolveram resistência contra agentes antimicrobianos, como exemplo: Enterococcus faecalis, Mycobacterium tuberculosis, Neisseria gonorrhoeae, e Staphylococcus aureus.3,4

Uma das alternativas relevantes na busca do controle da resistência bacteriana são as plantas medicinais. A pesquisa da atividade biológica de plantas medicinais originárias de diversas regiões do mundo é orientada pelo uso popular, que evidencia maior eficiência na porcentagem de plantas com melhores ou maiores atividades do que amostras de plantas selecionadas aleatoriamente.5 Espécies vegetais têm sido usadas, pelas propriedades antimicrobianas, através de compostos sintetizados pelo metabolismo secundário da planta, que são reconhecidos por suas substâncias ativas, como é o caso dos compostos fenólicos e taninos.6 Outros estudos mostram que alguns metabólitos secundários podem potencializar a ação de drogas como os antibióticos, quando utilizados em associação, restaurando a atividade antibiótica contra cepas bacteriana resistentes tais como Staphylococcus aureus e Escherichia coli.7

Uma das famílias bastante estudada é a Urticaceae que apresenta distribuição cosmopolita, incluindo 1200 espécies, distribuídas em cerca de 50 gêneros, dos quais o gênero Cecropia, compreende cerca de 100 espécies ocorrendo na América Tropical, desde o México até o sul do Brasil,8 com maior destaque na flora brasileira por ser típico de formações secundárias ou clareiras no interior de florestas, sendo considerada pioneira para recuperação de áreas degradadas.9

Uma das espécies pertencentes a esse gênero é a Cecropia pachystachya T., conhecida popularmente como embaúva, embaúba, imbaúba, umbaúba, árvore da preguiça, e como toré na região do Cariri-Cearense. Uma planta arbórea e frutífera com finalidade ornamental e medicinal, pertencente à família Urticaceae, usada na medicina tradicional no tratamento de infecções respiratórias,10 hiperlipidemias,11 antidiabética,12 gonorreia e citada como diurética.13 Foram relatadas na literatura atividades farmacológicas, tais como atividade ansiolítica, antidepressiva,14 antioxidante,15 cardiotônica, sedativa,16 e antinflamatória.17

Neste contexto o objetivo deste trabalho foi verificar a atividade antibacteriana do extrato etanólico e frações metanólicas das folhas e caule de C. pachystachya bem como verificar sua ação como um agente modificador da resistência aos aminoglicosídeos.

 

MÉTODOS

O material vegetal (folhas e caule) foi coletado na Chapada do Araripe, região do Cariri, no município de Crato, Ceará à orientação sul 7º 19.700; oeste 39º 27.949, no mês de maio de 2010. Após a identificação e produção da exsicata, esta foi depositada no Herbário Caririense Dárdano de Andrade Lima – HCDAL da Universidade Regional do Cariri – URCA, catalogada sob número de registro 5595.

As partes coletadas foram trituradas e submersas em solvente etanol PA, separadamente em temperatura ambiente por 72 horas. Após esse período, a solução obtida foi filtrada e submetida à destilação do solvente no aparelho evaporador rotativo a vácuo, onde o produto obtido foi levado ao banho-maria, para evaporação do excedente etanólico. O rendimento do extrato obtido foi de 12,29 % para as folhas, 2,92 % para o caule. O Extrato Etanólico das Folhas de C. pachystachya T. foi denominado de EEFCP e o Extrato Etanólico do Caule de C. pachystachya T., denominado: EECCP.

As frações metanólicas do EEFCP (15,0g) e do EECCP (6,0g) foram obtidas a partir de 22,87 g e 9,0192 g, respectivamente. Para tanto foi realizado o processo de fracionamento utilizando o solvente polar metanol. Os extratos foram macerados em sílica gel até obtenção de uma mistura homogênea, onde posteriormente foram tratados com solvente metanólico e filtração a vácuo utilizando funil de Büchner e kitassato acoplado a bomba a vácuo, produzindo frações metanólicas com rendimento de 31,7 % para as folhas, que foi denominada de FMFCP e 25,27 %, para o caule, denominada de FMCCP.

Para a realização da prospecção fitoquímica dos extratos etanólicos seguiu a metodologia de Matos,18 onde classes de metabólitos secundários foram identificados por mudanças colorimétricas e precipitados formados após a adição de reagentes específicos.

Nos ensaios bacteriológicos a solução inicial dos extratos etanólicos das folhas e caule e suas respectivas frações metanólicas, foram preparadas a partir de 200 mg, solubilizadas em 1 mL de Dimetilsulfóxido (DMSO), para obter uma concentração inicial de 200 mg/mL. Em seguida, estas soluções foram diluídas para 1024 µg/mL, com acréscimo de água destilada, para cada amostra. Para esse ensaio foram utilizadas quatro linhagens bacterianas padrões, cepas oriundas da American Type Culture Colletion-ATCC. Deste grupo a Staphylococus aureus ATCC 25923, como representante Gram-positiva, e Escherichia coli ATCC 10536, Pseudomonas aeruginosa ATCC 15442 e Klebsiella pneumoniae ATCC 4362, Gram-negativas. E como bactérias multirresistentes, Escherichia coli 27 e Staphylococcus aureus 358, ambas obtidas a partir de isolados clínicos com perfil de resistência (tabela 1). Todas as linhagens foram mantidas em Agar infusão de coração (HIA, DifcoLaboratories Ltda.) e reavivadas em meio Brain Heart Infusion (BHI, DifcoLaboratories Ltda.) e incubadas por 24 horas a 37 ± 2 ºC em estufa bacteriológica.

A Concentração Inibitória Mínima (CIM) foi determinada através do método de microdiluição utilizando-se um inóculo de 100 µL de cada linhagem, suspensas em caldo Brain Heart Infusion-BHI até uma concentração final de 105 UFC/mL em placas de microdiluição com 96 poços. Em cada poço foi adicionado 100?L de solução de cada produto natural sofrendo diluições em série. A última fileira de poços foi usada como controle de crescimento de microrganismos. As concentrações finais dos extratos e frações variaram entre 512-8 µL. As CIMs foram definidas como as menores concentrações para a inibição do crescimento.

Para a avaliação dos produtos naturais como moduladores da ação antibiótica, a CIM dos aminoglicosídeos gentamicina, canamicina, amicacina e neomicina (Sigma Chemical Corp., St. Louis, MO, EUA) foi determinada na presença e na ausência dos produtos naturais que estavam em concentração sub-inibitória (CIM/8).19 As concentrações dos antibióticos variaram de 2500 a 2,5 µL/mL. As bactérias utilizadas foram as multirresistentes, E. coli 27 e S. aureus 358, devido à relevância clínica. As placas foram então incubadas a 37 ºC e lidas depois de 24 h. Revelou-se o resultado com resazurina, 20 µl em cada poço, preparada em água destilada a 0,01 %. Após uma hora foi feita à leitura do teste com base na coloração, onde cor azul típica da resazurina indica ausência de crescimento bacteriano e a mudança coloração para vermelho indica presença crescimento bacteriano. O teste de modulação sinaliza um efeito sinérgico e/ou antagônico da amostra natural em estudo aos antibióticos aminoglicosídeos.

 

RESULTADOS

A análise fitoquímica do EEFCP e EECCP e suas respectivas frações metanólicas (FMFCP; FMCCP), revelou a presença de diversos compostos (tabela 2). Esta investigação evidenciou diferença de compostos entre as amostras estudadas. Entre os extratos das folhas e caule de C. pachystachya T., (EEFCP; EECCP) a diferença de compostos foi observada apenas na ausência de flavononas no EECCP. Entretanto, este composto foi identificado na fração metanólica (FMCCP) deste extrato. Na FMFCP, mostrou ausência de auronas, leucoantocianidinas e flavononas, enquanto no EEFCP, estes constituintes foram identificados.

O EEFCP e o EECCP e as frações metanólicas (FMFCP; FMCCP), apresentaram uma CIM ³ 1024 µg/mL frente às cepas padrões testadas, não demonstrando atividade clínica relevante de acordo com os limites estabelecidos pelo protocolo.20 No entanto, as amostras naturais associadas aos aminoglicosídeos mostraram modulação da atividade antibacteriana dos aminoglicosídeos, apresentando sinergismo contra S. aureus 358 e efeito antagônico frente E. coli 27 (tabelas 3 e 4).

A associação frente a S. aureus 358 apresentou diminuição da CIM, principalmente no que diz respeito à associação das amostras naturais com neomicina, evidenciando sinergismo. A CIM de neomicina foi de 312,5 µg/mL, quando associado com EEFCP e FMFCP, reduziu para 39,06 µg/mL, combinado com o EECCP e FMCCP diminuiu a CIM para 78,12 µg/mL. A canamicina obteve uma CIM de 78,12 µg/mL, quando associada à EEFCP e FMCCP a CIM foi para 19,53 µg/mL, na associação com o EECCP, houve modulação antagônica, aumentando a CIM para 625 µg/mL, assim como a FMFCP, que aumentou a CIM para 1250 µg/mL. A amicacina obteve uma CIM de 78,125 µg/mL e nenhuma das amostras vegetais demonstrou modulação. A gentamicina apresentou uma CIM de 4,88 µg/mL, as amostras EEFC e EECCP, não demonstraram modulação nesta associação, com FMFC e FMCCP a CIM foi para 19,53 µg/mL.

A associação dos extratos e frações metanólicas com os aminoglicosídeos, frente a E.coli, apresentaram aumento da CIM, antagonizando a atividade antibacteriana dos aminoglicosídeos. As amostras EEFCP e FMCCP associado à gentamicina não demonstrou modulação.

 

DISCUSSÃO

O uso de extratos como agente antimicrobiano, apresenta uma baixa possibilidade dos microrganismos adquirirem resistência à sua ação, porque são misturas complexas, fazendo com que a adaptabilidade microbiana seja dificultada.21 Estes compostos de fontes naturais, quando associados a antibióticos podem ter atividade direta contra muitas espécies de bactérias, modulando ou mesmo aumentando a atividade de um antibiótico específico, invertendo a resistência natural das bactérias a antibióticos específicos. A potencialização da atividade antibiótica ou a reversão da resistência aos antibióticos permite a classificação destes compostos como modificadores de atividade antibiótica.22

A prospecção fitoquímica dos extratos das folhas e caule e suas respectivas frações metanólicas em estudo indicaram a presença de vários tipos de compostos fenólicos, como flavonoides e taninos. Esses resultados corroboram com outros estudos, nos quais foram verificados a presença de flavonoides, taninos,23 flavonas,24 flavonoides, catequinas.25,26 Costa e outros27 detectou compostos fenólicos nas folhas de C. pachystachya, através da análise por Cromatografia líquida de alta eficiência (CLAE-DAD), obteve os flavonoides C-glicosídeos isoorientina, isovitexina e orientina, o flavonoide isoorientina se apresentou como majoritário para C. pachystachya. Também foi identificado o ácido clorogênico (ácido 3-O-cafeoilquínico). Estes compostos apresentam atividades conhecida, dentre estas a atividade antimicrobiana.28

Neste estudo o extrato e frações metanólicas de C. pachystachya, de forma isolada não demonstrou atividade antimicrobianos. Entretanto, associados aos aminoglicosídeos apresentou atividade frente S. aureus, ao reduzir a CIM dos aminoglicosídeos, através do método de microdiluição. No estudo de Paula23 foi demonstrada atividade antibacteriana moderada para S. aureus, pelo método de difusão em disco, formando zona de inibição de 10 e 12mm realizado com extrato metanólico das folhas de C. pachystachya. Esta diferença de resultados, possivelmente relaciona-se com a variabilidade genética das espécies vegetais, compostos que apresentam atividade antimicrobiana que podem estar ausentes ou em menor percentual nas amostras estudadas, ou ainda pela diferença dos métodos de cada estudo, associado a fatores variáveis entre os testes, como o crescimento microbiano, exposição do microrganismo ao produto natural testado, a sua solubilidade, a concentração testada e o agente solubilizante.29

A atividade sinérgica observada pode ser devido a presença dos metabolitos secundários presentes nas amostras como os taninos e flavonóides que são sintetizados por plantas em resposta a infecções microbianas,30 sendo capazes de alterar a parede celular ou destruir a membrana plasmática facilitando absorção das drogas.31

Diversos estudos relatam que as atividades biológicas dos vegetais estão relacionadas à presença de metabólitos secundários, ou que estes podem facilitar a atividade de antimicrobianos quando em associação. O efeito sinérgico apresentado neste estudo, dos produtos naturais sobre a ação do aminoglicosídeos, frente a S. aureus, pode estar relacionado aos polifenóis, visto que estes compostos são mais ativos contra bactérias Gram-positivas, especialmente, S. aureus.32 Esta atividade provavelmente seja relacionada à habilidade dos flavonóides se complexarem com a parede de células bacterianas, resultando no rompimento das membranas microbianas,33 favorecendo a desintegração das membranas celulares bacterianas por meio da complexação dos agentes associados (produto natural/antibiótico) com a parede celular bacteriana.

Considerando que as bactérias Gram-positivas, possuem parede celular quimicamente menos complexa e menor teor lipídico do que as Gram-negativas,34 devido à ausência da membrana externa de lipopolissacarídeos e das proteínas porinas,35 a estrutura celular de S. aureus, possivelmente, contribui para facilitar a ação sinérgica dos produtos naturais aos aminoglicosídeos. Vários trabalhos realizados mostram inibição do crescimento de S. aureus, atribuída aos flavonoides.36-38 Entretanto, a mistura de compostos presentes nos extratos brutos e frações possuem quantidades elevadas de metabólitos, o que também pode diminuir o efeito das substâncias ativas,39 este dado possivelmente pode justificar o efeito antagônico de FMFCP, EECCP e FMCCP frente a S. aureus.

A redução na atividade dos aminoglicosídeos na presença dos produtos naturais testados, frente a E. coli, possivelmente seja relacionado ao efeito antioxidante dos flavonoides, que é atribuído à propriedade quelante dos mesmos.40 De acordo com Granowitze Brown41 Os efeitos antagônicos do uso combinado entre antibióticos podem ser atribuído a quelação mútua. Velásquezu e colaboradores relatam potencial antioxidante de C. pachystachya, e a prospecção fitoquímica identificado à presença de flavonoides neste estudo, dos quais Costau outros identificou que o flavonoide marjoritário é isoorientina nesta espécie. Vários trabalhos demonstram atividade antioxidante in vivo e in vitro da isoorientina.42-45

De modo geral, os extratos e frações metanólicas das folhas e caule de C. pachystachya demonstraram eficácia em modular a atividade dos antibióticos testados, sendo que para a seu efeito foi potencializado quando associados a estes produtos naturais contra linhagens Gram-positivas, e efeito modulador antagônico para linhagens Gram-negativas testadas. A atividade sinérgica apresentada pelas amostras em estudo frente à linhagem Gram-positiva é bastante relevante, visto que o aumento crescente da frequência S. aureus resistentes nos últimos anos tem sido um problema.46

Os presentes resultados indicam que extratos e frações de C. pachystachya, foram eficazes em potencializar a ação antibacteriana dos aminoglicosídeos frente a S. aureus multirresistente testada, uma vez que possuem compostos com reconhecida atividade antibacteriana tais como taninos e flavonóides.

Evidenciando a possibilidade do uso de produtos naturais combinados aos aminoglicosídeos, apresentando uma fonte alternativa de pesquisa de agentes contra as bactérias do gênero Staphylococcus, bem como avaliar o efeito dos produtos naturais testados associados a outras classes de antimicrobianos.

 

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Recibido: 17de julio de 2013.
Aprobado: 11 de marzo de 2014.

 

 

Dr. Saulo Relison Tintino. Departamento de Química Biológica, Universidade Regional do Cariri – URCA, Crato-CE, Brasil. Rua Cel. Antonio Luis 1161, Pimenta, 63105-000. Fone: +55(88)31021212; Fax +55(88) 31021291.
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